Com Rigoletto, Il trovatore e La traviata, estreados entre 1851 e 1853, Giuseppe Verdi implica-se em cada uma das vertentes do processo de concepção musical e cénica atingindo uma intimidade invulgarmente versátil com a totalidade das dimensões operáticas. O compositor investe num estudo crítico da sociedade centrado na observação psicológica de uma rede de personagens emblemáticas.

La Traviata

Sendo contemporânea do romance que lhe deu origem – A Dama das Camélias de Alexandre Dumas Filho – a ópera em três actos La traviata tem uma repercussão desfavorável quando estreia no La Fenice. O público revê-se no placo, sobressaltando-se com a sua própria imagem.

A sedução combina-se agilmente com uma contundente degenerescência física e desânimo na existência da delicada cortesão parisiense Violetta Valéry, que se expõe irremediavelmente a um austero julgamento comunitário ao escolher partilhar a sua vida com um jovem de boas famílias. Num extenso e profundo dueto entre a jovem mulher e Giorgio Germont, pai do seu amado Alfredo, desenha-se o seu destino infeliz. O amor que a inebriou e interrompeu o frenético encadear de valsas da sua existência, transforma-se então em arma sacrificial. Violetta renuncia à paixão com o propósito de preservar a respeitabilidade da família Germont. Os últimos momentos da sua vida congregam novamente a atenção de Alfredo e Giorgio, que pretendem, sem êxito, remediar a injustiça do passado e reabilitar aquela que tinha sido uma efémera situação de conforto.

Rigoletto
Quando a censura interdita o libreto que Francesco Maria Piave baseara em Le Roi s’amuse de Victor Hugo, considerando-o imoral, de uma ‘trivialidade obscena’, e lamentando ‘que o poeta Piave e o célebre maestro Verdi não tenham encontrado nada melhor para expressar o seu talento’, o compositor sente-se enraivecido e consternado. O libretista dedica-se rapidamente à revisão do texto – mas a nova versão não agrada a Verdi, que a considera distanciada de toda a lógica e fulgor originais. É necessário estabelecer-se um compromisso: alteram-se o local, os nomes das personagens, suprimem-se algumas cenas, mantendo-se todos os eixos dramáticos que Verdi considerava essenciais. O libreto será finalmente aceite e a obra concluída sob o nome do seu protagonista buffo, o corcunda Rigoletto.

Na estreia, a 11 de Março de 1851, enquanto o público rejubila, a crítica sente-se dividida perante uma obra de tal intensidade dramática. Como se poderia, enfim, reagir, a uma proposta que indiciava uma tão intensa ruptura com a estética rossiniana conferindo, nomeadamente, tão escassos momentos solísticos às suas personagens principais? A densidade teatral, o recorte emocional das personagens e das suas sinergias, a escrita orquestral, tudo concorre para uma circunstância inovadora, uma nova fase na carreira de Verdi e na ópera oitocentista.
Durante uma festa no palácio ducal de Mântua, os comentários sarcásticos de Rigoletto, em relação a um dos convidados, o conde de Monterone, fazem com que este amaldiçoe o pobre corcunda. É sob esta tensão que toda a acção se desenrola: a bela filha de Rigoletto, Gilda, virtuosa e heróica, será seduzida e posteriormente raptada pelo Duque, sem que este abdique de perseverar nas suas conquistas amorosas. Rigoletto, ansiando por vingança, contrata um assassino para matar o fidalgo – porém… no meio de várias peripécias, é Gilda que acaba por ser morta, concretizando-se a conjecturada maldição.
Texto Paula Gomes Ribeiro.